POLÍTICA


Memória viva

Mino Carta


09 de agosto de 2012

Alguém bate à porta. “Entre.” Entra o jornalista Luis Weiss. Vem da outra margem do rio e o atravessou a montante, como boi de piranha. Não é um sonho, é memória viva. Estamos no começo de outubro de 1975, eu dirijo a revista Veja e Weiss acaba de sair da equipe de jornalismo da TV Cultura, comandada por Vlado Herzog.
Dom Paulo. Personagem admirável por bravura e compaixão. Foto: Mabel Feres/AE
A saída, diz Weiss, resulta de uma decisão do grupo, acusado de compor uma célula comunista e encarado com extrema, aterradora suspeita pelos jagunços fardados da casa-grande, concentrados no DOI-Codi e prontos a agir. Trata-se de verificar o comportamento das piranhas, e a comparação parece-me perfeita. Weiss pede emprego, digo “começa já”. Decido de pronto, a evitar consulta aos patrões, mesmo porque tenho autonomia para tanto. Sei, porém, que, se recorresse às suas luzes, viriam de lâmpada Skuromatic e criariam trevas ao meio-dia.

Evoco o episódio 
daqueles dias plúmbeos porque pouco mais de duas semanas após Vlado seria assassinado pelos torturadores da ditadura civil-militar. Nesta edição, entrevistado por Ana Ferraz, Audálio Dantas, então presidente do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, também fala daqueles momentos e generosamente se refere a mim e ao meu envolvimento no doloroso enredo. De fato, na madrugada de 25 de outubro de 1975, ao saber que Vlado teria de se apresentar de manhã às cancelas do DOI-Codi e que também Weiss era procurado pelos jagunços fardados, procurei em vão pelo telefone o chefe da Casa Civil, Golbery do Couto e Silva, e o governador Paulo Egydio, ambos ausentes dos seus paradeiros habituais e inalcançáveis.
Atendeu-me o cardeal-arcebispo Dom Paulo Evaristo, e foi ele quem, horas após, conseguiu falar pelo telefone com Paulo Egydio e dele recebeu a seguinte incumbência: instruir-me para que eu fosse a Santos à procura do coronel Erasmo Dias, secretário da Segurança do governo paulista, e o instasse a regressar à capital de sorte “a assumir o controle da situação”. Segundo o governador, eu daria com o coronel na Vila Belmiro, reduto do Santos Futebol Clube. Contive-me para não despencar miseravelmente na gargalhada. Disse apenas: “Pelo amor de Deus, Dom Paulo, no mínimo Erasmo Dias me prende no ato”. Retrucou o cardeal: “Esta é a mensagem do governador, no mais eu entendo de Deus muito mais do que você”.
A observação soou-me de toda justiça, e fui atrás do coronel, a partir do gramado que celebrizou Pelé. Não o encontrei nem ali, nem em outro canto. Quando encerrei a busca, Vlado já estava morto, abatido na célebre imagem forjada para simular o suicídio, como títere abandonado no bastidor.
No dia seguinte, enquanto Dom Paulo cogitava do culto ecumênico que reuniria na Sé 8 mil pessoas na mira dos atiradores postados no alto dos prédios erguidos em torno da praça central de São Paulo, um comunicado do sindicato de Audálio negava com todas as letras a versão do suicídio. O mesmo Audálio que, com as devidas garantias de que tudo não passaria de um depoimento, juntou-se a mim para levar Luis Weiss, desde a madrugada de sábado escondido no apartamento de José Roberto Guzzo, um dos dois redatores-chefes da Veja, à presença de um certo, e soturno, coronel Paiva, substituto do coronel Brilhante Ustra na chefia do DOI-Codi. O compromisso foi cumprido, Weiss estava em liberdade três horas depois.
O sindicato, sob a batuta de Audálio, teve papel extraordinário na resistência à ditadura civil-militar, papel indispensável à memória daquele tempo trágico, e infamante para muitos brasileiros, fardados e paisanos. Ainda assim, estes e seus herdeiros pretendem relegá-lo ao esquecimento. A bem do País? A bem da paz geral da Nação? Ora, ora, a bem deles mesmos. Nesta edição, a reportagem de capa aponta para a possibilidade inédita de que um torturador feroz, primeiro responsável por inúmeros assassínios cometidos nas masmorras do DOI-Codi, seja condenado. Seria um passo decisivo na derrubada da dita lei da anistia imposta pela ditadura civil-militar.
Sim, a história costuma ser escrita pelos vencedores. Até onde chegam a leniência e a covardia que Argentina e Chile não tiveram, e muitos outros povos em ocasiões recentes ou remotas? Ou será que vencedores foram eles mesmos, ainda e sempre senhores da casa-grande?


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Eleições na França.  http://www.cartamaior.com.br,     em 06 de fevereiro de 2012  







O ultraliberal frenético x o socialista calmo

O contraste é radical : o frenesi de Nicolas Sarkozy, um homem seguro de seu poder, convencido de que ninguém pode vencê-lo, que recorre a todas as artimanhas que os estrategistas de comunicação são capazes de elocubrar ; e o sossego de seu rival, François Hollande, que sabe o repúdio que o presidente provoca e o capital que representa a serenidade ao cabo de cinco anos de uma presidência onde a velocidade e a ocupação frenética da praça pública terminaram por cansar a sociedade. O artigo é de Eduardo Febbro.

Paris - Um corre e o outro caminha. O homem frenético e o homem tranquilo. O chefe e o aspirante. Nicolas Sarkozy e François Hollande se projetam no espaço público com duas imagens que qualquer câmera capta em um instante. O candidato socialista à eleição presidencial de abril e maio próximos passeia, tornou-se uma espécie de caminhante tranquilo enquanto que o presidente francês corre de um extremo a outro em busca dessa fusão com seu povo que se plasmou em 2007 e que, agora, de comício em comício, não consegue repetir.

O contraste é radical : o frenesi de um homem seguro de seu poder, convencido de que ninguém pode vencê-lo, que recorre a todas as artimanhas que os estrategistas de comunicação são capazes de elucubrar ; e o sossego de seu rival, que sabe o repúdio que o presidente provoca e o capital que representa a serenidade ao cabo de cinco anos de uma presidência onde a velocidade e a ocupação frenética da praça pública terminaram por cansar a sociedade.

Nicolas Sarkozy, presidente em exercício e candidato à reeleição, autodefinido com a etiqueta de salvador do povo contra as elites, grande aficcionado de relógios Rolex, dos óculos Rayban e da cultura ostentativa, completa duas semanas de campanha eleitoral sem que as pesquisas registram qualquer variação decisiva a seu favor. A extrema direita já não ameaça mais Sarkozy, o centro corre o risco de ser desclocado pela Frente de Esquerda, de Jean Luc Melanchon, ao mesmo tempo em que a extrema esquerda e os ecologistas ficaram pelo caminho vítimas de suas próprias divisões. O combate está focalizado entre a vertigem ultraliberal e a placidez de uma social democracia restaurada.

Tudo se passa como se o tempo e a opinião pública tivessem se detido na mesma po sição: François Hollande mantem uma distância quase invariável entre 3 e 5 pontos na perspectiva do primeiro turno que será realizado dia 22 de abril e uma enorme vantagem entre 12 e 16 pontos no segundo turno, de 6 de maio. Com o decorrer das semanas, a eleição presidencial vai adquirindo o perfil de um referendo : mais que uma decisão entre uma ou outra opção política, a tendência é de um voto a favor ou contra Sarkozy.

O presidente se lançou à batalha eleitoral com um desses argumentos que os conselheiros de comunicação inventam como se os povos fossem tontos ou não tivessem memória. Primeiro se apresentou sob a bandeira do « candidato do povo » e, depois, em seu primeiro comício realizada em Marselha, como « o candidato do povo contra as elites ». Já não tinha o Rolex no pulso, mas essa sombre de « presidente dos ricos » que ele mesmo criou o persegue por onde vai. As pessoas não esquecem a memorável noite de sua vitória de maio de 2007 quando foi festejar seu triunfo em um dos restaurantes mais emblemáticos da grande bueguesa, o Fouquet’s, na avenida Champs Elisées. Sarkozy celebrou sua vitória com um círculo íntimo de empresários da indústria e milionários. Foi o ato inaugural de seu mandato.

Agora, à medida que vai baixando de seu pedestal de presidente para o modesto estatuto de candidato, Sarkozy mede o rancor popular. Até aqui, todos os comícios que realizou foram exuberantes, perfeitos na cenografia, na participação do público cujos gritos e sorrisos estavam regulados com a perfeição de um relógio suíço. Mas em terreno aberto, na rua, sem os cordões policiais que antes, quando não era presidente-candidato, interditavam ruas por quilômetrosd, Sarkozy enfrentou uma nova realidade : em sua visita a Bayona teve que se esconder em um bar diante do tumultuado protesto popular que sua presença provocou.

Ele ainda não perdeu, há muita coisa pela frente. Sarkozy é um guerreiro astuto que se alimenta na crueza do combate. Mas teve uma semana calamitosa. Sua porta-voz e ex-ministra dos Transportes, Nathalie Kosciusko-Morizet, cometeu uma gafe monumental quando lhe perguntaram se sabia quanto custava um bilhete de metrô : 4 euros, disse. Erro. Custa 1,70 euros. O próprio presidente se expôs quando, três dias antes de ser um fato, anunciou a chegada ao Líbano da jornalista francesa Edith Bouvier, ferida em Homs, a cidade síria sitiada pelas tropas do regime de Bachar Al-Assad. Sarkozy e sua estrutura multiplicam os anúncios, as intervenções, os golpes midiáticos, mas o índice não se move.

A candidatura socialista não provoca grandes entusiasmos. No entanto, com um par de palavras, François Hollande desloca seu rival do centro da cena. Hollande propôs um imposto de 75% para quem tem rendimentos superiores a um milhão de euros. Isso aumentaria os impostos de categorias da população que têm grandes ganhos e conseguem driblar o fisco. A medida preconizada por Hollande afetaria os milionários populares, como os jogadores de futebol e cantores, que pagam migalhas ao fisco. O aparato liberal caiu sobre sua cabeça. Os meios de comunicação, que estão ao serviço da agenda ultra-liberal, manipularam e demoliram a proposta. O resultado foi exatamente o oposto : 61% dos franceses está de acordo com o candidato socialista. Pior ainda, a proposta de Hollande logo ganhou um apelido popular : « o imposto Fouquet’s ».

A direita europeia, empenhada em derrubar o modelo social do Velho Continente, vê abrir-se uma fissura na compacta frente que tinha até aqui. A vitória provável de François Hollande e seu compromisso de renegociar o pacto fiscal imposto pela Alemanha é uma ameaça para a frente liberal. Seus integrantes se uniram para boicotar François Hollande. Segundo revela o semanário Der Spiegel, a chanceler alemã Angela Merkel propôs a seus colegas da Itália, Mario Monti, da Espanha, Mariano Rajoy, e da Grã Bretanha, David Cameron, que não recebessem o candidato socialista. Der Spiegel assegura que Monti, Rajoy e Cameron se « comprometeram verbalmente » a boicotá-lo.

Os príncipes das sombras também entraram em ação apontando suas flechas para os estrangeiros. Sarkozy esgotou sua reserva de votos e só resta um espaço possível de conquista à extrema-direita. O atual ministro do Interior, Claude Guéan, voltou a manifestar um de seus costumeiros desprezos públicos aos estrangeiros. Os socialistas propõem que os estrangeiros tenham direito a voto nas eleições locais. Guéan considerou que isso equivaleria a que « a presença de alimentos halal (feitos com animais tratados segundo o rito muçulmano) fosse obrigatória nas cantinas escolares ». Antes havia dito que « as civilizações não têm o mesmo valor ».

A voz das pesquisas empurrará a direita a incursionar mais fundo no terreno da extrema direita. Será precisar tapar os ouvidos e o nariz. Nicolas Sarkozy corre atrás de uma idéia que não consegue se materializar. François Hollande o espera sentado no banco da praça. A calma contra a tempestade. Nada está definitivamente ganho nem perdido. O resultado do confronto entre esses dois modelos seguirá sendo incerto até o último momento. Mas o reino da velocidade vai perdendo pouco a pouco suas certezas ante o efeito neutralizador da lentidão.

Tradução: Katarina Peixoto



21/08/2011
A "guerra ao terror", 10 anos depois

“Os EUA, como o mundo sabe, nunca começam uma guerra”, dizia John Kennedy em 1963. Vinte anos depois, Ronald Reagan reiterava: “A politica de defesa dos EUA está baseada numa única premissa: os EUA nunca começam um enfrentamento. Nós nunca seremos um agressor.”
A reação aos atentados de setembro de 2001 fizeram com que os EUA mudassem formalmente sua doutrina. Richard Armitage, Secretário de Estado naquele momento, anunciou o que mudava: “A História começa hoje. Decretava-se o fim da doutrina da contenção, enunciada quando os EUA anunciavam o começo da “guerra fria”, recém terminados os armistícios da Segunda Guerra. O Secretario de Defesa, Donald Rumsfeld dizia: “a melhor, e em alguns casos, a única defesa, é uma boa ofensiva”. Indo mais longe na sua nova doutrina de guerra, os EUA passaram a reivindicar o direito ao ataque preventivo, alegando o caráter da guerra informal, contra um inimigo sem território definido.
No marco de um mundo unipolar, com o triunfo absoluto na “guerra fria” e a desaparição da outra super-potência, a Pax Americana já reinava uma década antes. A primeira guerra do Iraque, a guerra da Iugoslávia e outras ações militares – como a fracassada na Somália - prenunciavam que a inquestionável superioridade militar norteamericana reordenaria o mundo conforme seus desígnios.
Dez anos depois, os EUA demonstram que não estão em condições de desenvolver duas guerras simultaneamente, mesmo com uma brutal superioridade militar, contra países virtualmente ocupados. Tanto no Iraque quanto no Afeganistão, a retirada das tropas não dá garantias de controle militar da situação, mesmo ainda com a presença dos EUA, fazendo prever novos adiamentos da retirada do Iraque.
O mundo sob hegemonia imperial norteamericana não é um mundo mais seguro do que antes. A superioridade militar não é garantia de ordem política, como já indicava o velho preceito: Se pode fazer tudo com as baionetas, menos sentar em cima. Essa ilusão tiveram os Estados Unidos. Acreditavam que poderiam envolver o mundo inteiro na sua lógica de represálias contra “o terror” e que a ideologia de militarização dos conflitos seria hegemônica, a ponto de permitir um tranquilo bloco político de apoio.
Se isso se deu no impacto imediato das ações, ainda em 2001, com a invasão do Afeganistão - mesmo sem provas alguma de que dali tinham sido articuladas as ações nos EUA -, a coalizão não resistiu à invasão do Iraque, sem provas e sem a aprovação do Conselho de Segurança. Mas o enfraquecimento das alianças foi efetivamente se dando conforme a guerra se prolongava e os desgastes – financeiros e de baixas – foram se avolumando, incluindo Abu Graieb e Guantanamo.
A estratégia da “guerra ao terror” teve seus ganhos, serviu de álibi para que os EUA consolidassem sua liderança no mundo, ao privilegiar a esfera em que é mais forte – a militar. Mas chegam aos 10 anos desgastados militarmente, enfraquecidos na sua capacidade de liderança política e fragilizados economicamente.
Um balanço duro para quem se erigia como senhor do mundo há uma década. A hegemonia norteamericana entrou em crise, sem que apareça outra força que possa substituí-la. O que se pode vislumbrar no horizonte é um mundo multipolar, que possibilite resolver os conflitos não pelo predomínio militar, mas pelas negociações politicas, em que a “guerra ao terror” possa ser substituída pelo terror à guerra.

Postado por Emir Sader às 12:09


Fernando Collor de Melo é contra a lei que acaba com o sigilo eterno03/05/2011 - 12h18

Unesco defende lei que acaba com sigilo eterno
FLAVIA FOREQUE
DE BRASÍLIA

O representante da Unesco no Brasil, Vincent Defourny, defendeu nesta terça-feira a aprovação do projeto de lei que trata do acesso a informações públicas, atualmente em tramitação no Congresso Nacional.

A presidente Dilma Rousseff pressionou o Legislativo para a aprovação da matéria, que acaba com o chamado sigilo eterno de documentos oficiais, até a data de hoje, Dia Mundial da Liberdade de Imprensa. Mas encontrou resistências do senador Fernando Collor (PTB-AL), presidente da Comissão de Relações Exteriores, em avançar o debate na Casa. O texto, encaminhado em 2010 para o Congresso, espera a designação de um relator na comissão.

"A lei geral de acesso a informações públicas está em vias de ser aprovado pelo Senado, o que pode contribuir para uma sólida redução das assimetrias informacionais ainda existentes no Brasil", disse Defourny.

O representante da Unesco (braço da ONU para a educação) no país lembrou ainda, em seminário no Instituto Rio Branco, em Brasília, que a liberdade de expressão depende tanto de uma imprensa plural e livre como de um governo que garanta acesso a informações públicas.

O evento contou a presença dos ministros Helena Chagas (Comunicação) e Antonio Patriota (Relações Exteriores).